26.4.17

Ilhas Maldivas by Me


Este destino foi uma surpresa para mim. Não tínhamos programado antes de lermos o blog de uma querida amiga o Carioca Travelando

Aproveitamos o feriado religioso de EID e partirmos, eu e meu marido, para Lily Resort, na tão glamourosa Ilhas Maldivas.

Já no clima da viagem, não poderia deixar de registrar um momento descontraído com as aeromoças da companhia aérea.


Voamos da Arábia Saudita para Doha, capital do Qatar.


Passar algumas horas neste aeroporto não é nada desgastante. É considerado o mais moderno do mundo, com um espaço físico bem apropriado para deixar a vida te levar, observando o vai e vem de viajantes de todas as partes do mundo, com suas roupas exóticas, seu jeito peculiar de estar presente e ao mesmo tempo viajando a procura de um destino, quase sempre que seja para sua felicidade. Meu desejo ao menos era este, de passar uma semana feliz, livre dos limites da vida no Oriente Médio, ao lado do meu companheiro e, de quebra, realizar um dos desejos dele, voar de hidroavião pelas Maldivas.


O transporte para chegar até o local que escolher pode ser speed boat (lancha ou barco de velocidade mais rápida) ou hidroavião. A lancha é usada como transporte para distâncias próximas da capital Male (geralmente o tempo de viagem costuma ser entre 30 e 40 minutos) e te levam até as 1.200 ilhas, sendo que as habitadas, onde se encontram os resorts, são em torno de 200. O hidroavião é a opção utilizada para ilhas que estão mais afastadas.


Reservamos nossos tickets para o trajeto desde Male, a capital das Maldivas, até Lily Resort, pela Transmaldivian

As Ilhas Maldivas ficam localizadas bem abaixo da Índia e do Sri Lanka. As ilhas tinham como religião o budismo, mas por volta de 1153, o país foi convertido ao islamismo que hoje é a religião única no país. Isto já te dá um anúncio de que a bebida alcoólica somente é permitida no país nas Ilhas que tem resorts. 

Destino romântico super cobiçado pelos casais apaixonados, Maldivas é um ótimo lugar para se visitar durante todo o ano. A baixa temporada acontece durante os meses de maio à novembro, período em que chuvas e tempestades são mais comuns. 

Não sei se precisa de visto para visitar as Maldivas: o visto nos foi concedido na chegada ao aeroporto, na capital Malé.


Na chegada é importante se abastecer com algumas maldivian ruffia ou com dólar americano, que é aceito em todos os lugares, mas você acaba pagando muito mais quando compra em dólar, pois fica à mercê do câmbio do vendedor. Então, é melhor trocar dinheiro ou ir a um ATM no aeroporto.

Visitar as Maldivas partindo do Brasil deve ser, sem dúvidas, uma viagem longa e custosa. Mas conhecer esse paraíso pode ser sim uma viagem para diferentes orçamentos. As Maldivas hoje possuem diversas guest houses, os chamados albergues, que são hotéis básicos no estilo bed & breakfast. Já os famosos resorts com refeições, bebidas e passeios inclusos, são os mais procurados para casais.

É muito importante que você pesquise bem o lugar de hospedagem, já que existem mais de 110 resorts espalhados pelas ilhas. A maioria que te oferece serviço all incluse. Você com certeza vai encontrar um que combine com o seu gosto e seu orçamento. Entretanto, preciso avisar que os preços são bem mais caros quando comparados a Indonésia, Thailândia ou Srilanka, países muito procurados hoje em dia, e que já tivemos a oportunidade de conhecer.


Mas não desista fácil de conhecer as Ilhas Maldivas por causa dos preços, por uma boa causa: pelo amor aos seus olhos, vale a pena conhecê-las! Os contrates das cores do mar vão te deixar sem palavras, só com vontade de ficar apreciando essas belezas por muito tempo.


Claro que meu marido, como piloto apaixonado por hidroavião, conquistou a simpatia do piloto e a sua permissão para um sobrevoo.



Quando chegamos à ilha onde fica o Lily Beach Resort & Spa, no Ari Atol, a recepção calorosa. Este já foi um sinal do quanto seria especial estar isolada por uma semana neste paraíso. É um lugar fantástico, com uma super estrutura, serviço, passeios, gastronomia, cursos de mergulhos e oportunidades de conhecer um mix cultural com muitos turistas estrangeiros.




O pacote que fizemos com o hotel nos dava direito a fazer dois passeios às ilhas vizinhas. Escolhemos fazer snorkel em alto mar, em dois pontos diferentes. Foi incrível! Nós nos deparamos com um coral gigantesco, cheio de vida marinha e muitos peixes coloridos, meu marido ficou emocionado por ter nadado ao lado de tubarões pequenos. Eu já me contentei em nadar ao lado de uma tartaruga super relaxada... Pena que não alugamos uma câmera aquática, mas registrei bem fixamente em minha mente e coração este momento mágico, que foi mergulhar nas Maldivas.

Com o pacote de all incluse, nossos drinks de happy hour estavam sempre garantidos, mas degustávamos moderadamente, pois acordar de ressaca no outro dia e perder a oportunidade de aproveitar este paraíso não estava em nossos planos.


Romantismo por toda parte na Ilha, olha o formato de coração dividindo os bangalôs.


A ilha tem três restaurantes, mas o que estava no pacote all incluse era um buffet internacional que não deixava a desejar a grande cuisine. O chef francês era muito simpático e nos cumprimentava todos os dias, disfrutamos de sua competência e pratos deliciosos. Impossível se lembrar de fazer dieta por lá.



Dia 1° de outubro, data do meu aniversário, claro que os queridos funcionários do hotel acrescentaram mais um mimo.



Também dentro do pacote all incluse, visitamos uma vila local chamada Dhangethi. Fomos orientados a nos vestir modestamente (mulheres cobrindo os ombros e os joelhos). Assim tivemos a ideia de como é a vida na ilha local, bem diferente da vida em uma ilha com um hotel. Dhangethi tem aproximadamente mil habitantes e sua principal fonte de renda é a pesca e o turismo.



A filha do mestre Werter, num relax no Pacífico: ah, como ele ficaria feliz de me ouvir contar sobre esta experiência.



Os banquinhos feitos de rede de pesca para descansar o corpo de pessoas com aparências relaxadas, desnudas do stress da cidade grande, das problemáticas do mundo exterior, só com a esperança de quem prepara o filho para um futuro melhor.  Nesta ilha, os homens saem para pescar por vários dias da semana e as mulheres ficam em casa auxiliando as crianças, que me mostraram sorrisos lindos, sem malícia, apenas com a curiosidade de quem não sabe o que se passa do outro lado da imensidão daquele mar.


Como a maioria dos resorts, o hotel em que ficamos tem um spa. Neste, era da rede Mandara, que tem os melhores espalhados pelo mundo. Eles oferecem vários tipos de massagens e serviços (muitos voltados para casais), tudo para fazer com que a sua experiência seja mais do que perfeita. Como me encanta a linha de massagem Ayurvedica, a qual já fiz vários cursos. Não poderia deixar de visitar o spa que tem esta especialidade. Comprei meus óleos essenciais que uso diariamente e me remetem ao cheiro das Maldivas.



No restaurante, a cada dia havia uma refeição temática; claro que nos deliciamos com os frutos do mar, frescos e saborosos.


As frutas são deliciosas, com sabores intensos; há uma grande variedade, e lembram as do clima tropical.



No cais da ilha, perto da recepção do hotel, todas as noites os funcionários alimentavam os peixes, podíamos ver a luta entre os tubarões e os coitadinhos dos sargentinhos.


Nosso quarto ficava de frente para o mar e isso me animava a sair cedo da cama para um mergulho matinal na água cristalina do pacífico.


Flores, cheiros, sabores: uma explosão nos sentidos, o dia todo e por toda parte...


Foi um aniversário inesquecível: gratidão eterna e o desejo de voltar a este paraíso!









Depois de nos deliciarmos com 5 dias no paraíso, precisávamos encarar a realidade e rumamos para Malé, onde passamos dois dias, antes de voltarmos para a Arábia Saudita, país em que vivemos atualmente.

Visitar Male foi uma experiência interessante. Conhecendo a capital, você terá a oportunidade de ver as Maldivas como ela realmente é, ou seja, diferente da vida nos hotéis e resorts. 

Em Male conhecemos um pouco mais desse país culturalmente riquíssimo e cheio de história. Indo as Maldivas, sugiro que você reserve um ou dois dias para explorar Male. Você vai voltar pra casa com uma lembrança das Ilhas Maldivas que vai muito além das lindas praias e da água azul cristalina. Encontrei por lá o maior número de motos que já vi numa cidade. Por ser muito pequena e ter um trânsito caótico, as motos dominam a capital. 

Ilhas Maldivas foi uma viagem incrível, que nos trouxe a oportunidade de ver tudo o que sempre procuramos em nossas viagens de férias: paisagens espetaculares, águas cristalinas, deliciosa culinária, dias de sombra, paz e água fresca e, acima de tudo, compartilhar com meu maridão momentos de intenso prazer. 






Meu marido, que é piloto por hobby, junto com o piloto da companhia Trans Maldivian Airways: nas Ilhas Maldivas também fizemos boas amizades.


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22.4.17

Santorini: Grécia e sua imponente beleza

Conhecendo Santorini, a ilha de história, arte, gastronomia, simpatia e lindas paisagens 

Saímos de Rhodes, eu e minha amiga de viagem, e rumamos para Santorini, navegando pelo mar Egeu a bordo do navio Blue Star 2. Você pode encontrar oficinas para comprar os tickets de barcos ou navio em qualquer porto das ilhas gregas. Na companhia Blue Star Ferries a passagem na classe econômica, em uma viagem de 8h, custa 40€. Além da classe econômica, você tem a Air Seats Lounge e a classe Executiva. Alem da Blue Star ferries que foi nossa preferida, você encontra a Hellenic Sea Ways e a Sea Jets.


Pagamos 39 euros por uma viagem de 8 horas. O mais caro foram os custos de comidas e bebidas, se você não quer gastar muito, leve um lanchinho para a viagem. Deixamos por lá o dobro do que pagamos na passagem, só com um prato e uma taça de vinho espumante. Mas como não é sempre que atravessamos o mar Egeu, concordamos que merecíamos aquele brinde.

Como moro na Arábia Saudita e faço muito turismo pela Ásia, senti uma grande diferença entre preços de alimentação e hospedagens. Falam tanto da crise dos gregos, mas parece que eles querem compensar as diferenças com os turistas.

Os preços em hotéis e restaurantes me assustaram um pouco. Uma dica para fazer uma viagem econômica para Santorini é escolher bem o mês. A alta temporada é entre junho e setembro, portanto no meses de maio e outubro você pode encontrar muitas promoções de hotéis, passagens aéreas e ainda vai curtir um clima gostoso.

Parada na ilha de Kos, cidade de Hipócrates, o pai da medicina

Fiquei impressionada com a quantidade de turistas japoneses que entraram no barco. Há japoneses por todos os lados na Grécia.

O pôr do sol é espetacular e nos encantou!


Acordávamos no Afrodete Hotel com muita disposição todos os dias, depois de abrir a janela e encontrar flores, céu azul e este marzão. Este hotel não era de muito luxo, mas tinha o necessário para nosso objetivo do momento, economizar em algo e curtir mais os passeios e as comidas.  

Em Santorini você pode encontrar oportunidades para todos os bolsos, mas claro que prevalecem os hotéis 5 estrelas, situados em Oia, de frente para o vulcão. Neste lugar você se encanta com um pôr do sol maravilhoso, por isso é almejado por muitos turistas, mas é onde se deixa cinco vezes mais o valor que pagamos pelo singelo, mas aconchegante, Afrodete (70 euros para duas pessoas por noite).

Aqui deixo a dica do blog de uma amiga, Uma brasileira na Grécia, sobre lugares onde se hospedar por bom preço em Santorini. Este blog me deu uma boa ajuda no planejamento de nossa viagem.  
Alguns hotéis econômicos: Golden Star, Petros, Summertime, San Giorgio Villa e Horizon Resort.


Ficamos quatro dias na ilha e como estávamos na semana do meu aniversário, escolhi celebrar numa vinícola grega bem recomendada. Convidei minha companheira de viagem para uma degustação de vinhos com alguns aperitivos gregos. Partimos de taxi para a Santo Wines, um lugar encantador em Pyrgos, com um restaurante com vista para o mar, a vinícola e uma loja. Você pode reservar pela internet para obter um bom lugar a fim de garantir em esplêndido pôr do sol. Neste dia tivemos sorte de presenciar um casamento grego, magnífico, iluminado pelo majestoso astro rei.



Como íamos degustar vinhos, decidimos neste dia usar o táxi como transporte, mas nos outros alugamos um quadriciclo. Você encontra em muitos lugares para alugar, entre 25 e 40 euros a diária, mas em Fira tem rodoviária com passagens a 2,50 euros para qualquer lugar da ilha.



Depois da degustação de vinhos que programamos para o horário do por do sol, seguimos para a degustação do que mais adoro, frutos do mar na Taverna Perigiali, em Kamari Beach, uma praia supercharmosa, com uma rua em frente ao mar cheia de tabernas com animação e boa comida. Uma ótima pedida para uma balada local.

Para lavar o corpo e a alma no dia seguinte aos vinhos, fomos navegar em um catamarã da  Santorini Sailing. O Dream Catcher nos banhou de prazeres entre a ilha vulcânica de Santorini, nos apresentando uma costa de águas cristalinas e montanhas rochosas com seus rabiscos de casinhas brancas e azuis, típicas da Grécia. Alem de nos refrescar com um soft drink, deliciosos vinhos gregos  e farta comida mediterrânea, preparada com carinho pelo atencioso chef a bordo. O programa de 5 horas nos custou 98 euros, mas tem opção para todos os bolsos. Para quem gosta de mar como nós, firmes caiçaras, foi a melhor pedida em Santorini. 

O mestre Werter iria se orgulhar de ver sua filha navegando no mar Egeu



Levando o patriotismo sempre conosco


Desbravamos as montanhas da ilha de quadriciclo e também em trilhas. Em cada montanha encontramos uma igreja ornamentando o cenário. A cada quilometro dávamos um suspiro de satisfação por estar ali, cheias de energia e muito bem acompanhadas, comemorando meus 49 anos. É um paraíso para voltar com meu maridão.





A energia só podia ser boa: por todo lado se encontra a casa de Deus


E não podia faltar as delicias da boa e saudável mesa grega, nosso café da manha de cada dia em Oia, de frente para a caldeira


Também indico passeios à praia de Perissa e às charmosas vilas de Imerovigli e Firostefani, onde ficamos hospedadas.

Uma grande recordação da bela Grécia pode ser clicada pelas mãos de uma boa fotógrafa, por exemplo na bela Vila de Oia ou no fundo do mar com um ensaio fotográfico. Fiquei fascinada pelas fotos subaquáticas, pena que só descobrimos no último dia que estávamos na ilha, Bianca Ramos pode te dar um bom suporte.

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7.3.17

Entrevista para o portal Tamoios News

Divido com vocês a entrevista que fiz em São Sebastião para o jornalista Ricardo Hiar, do Tamoios News, portal de notícias do litoral norte de São Paulo. Foi uma honra poder contar um pouco da minha história, refazendo parte da minha trajetória de brasileira expatriada. A matéria foi publicada em fevereiro de 2017. Espero que curtam! 

  




"Entre dois mundos: os dilemas e desafios da vida de uma caiçara na Arábia Saudita"



Há seis anos vivendo na Arábia, a sebastianense Valéria Ramos precisou aprender na prática sobre os padrões religiosos, culturais e sociais que imperam no país

Por Ricardo Hiar, de São Sebastião, para Tamoios News

Em pleno século XXI, com inúmeros avanços tecnológicos e a globalização, a mulher ganhou seu espaço e vem consolidando força em relação à igualdade de gênero. Mas se engana quem pensa que isso é uma realidade para as mulheres de todo o mundo. Há países onde a mulher não pode ser vista em público por outras pessoas, é proibida de trabalhar, dirigir, tampouco votar.

Exemplo disso é a Arábia Saudita, país muito conhecido pelas riquezas provenientes da produção do petróleo, mas onde a cultura machista impera e por questões, principalmente religiosas, a mulher tem um papel muito restrito e submissa ao homem.

Para as meninas que nascem em solo árabe, talvez esse não seja um problema sentido de forma incisiva, já que elas aprendem desde pequenas seu “papel”. Porém, o choque de realidades para quem cresce em outro país, como o Brasil, a adaptação não é fácil. É preciso mais do que paciência e disposição de aprender. Em alguns casos, é necessário se reinventar.

Nascida em São Sebastião, no Litoral Norte, Valéria de Souza Ramos, 49, foi sempre uma pessoa muito ativa. Filha de caiçaras, com um irmão e uma irmã, começou a trabalhar cedo, batalhou para estudar e concluir o ensino superior e correu atrás de seus objetivos. Mas após casar com um engenheiro belga, morar em países como Bélgica e Espanha, resolveu dar apoio o marido, que recebeu um convite para trabalhar na Arábia Saudita. “Foi uma proposta importante para ele, então apoiei para que ele aceitasse. Na época eu não tinha ideia do que viria pela frente”, completou.

Aliás, noção de como eram as coisas no mundo árabe, ela só teve quando estava lá efetivamente. Um fato curioso que ela conta é que num determinado dia, após seu marido aceitar o trabalho, o casal foi chamado para uma entrevista, junto com outros funcionários. “Eles nos reuniram para explicar como seria a vida por lá, principalmente com alertas para as mulheres. Mas foi falado tudo em francês e eu não entendia. Então no final eu estava meio que perdida, sem entender ao certo o que tinham dito, enquanto  outras mulheres saíram chorando de lá”, disse.


As origens e o trabalho

Em meio a uma vida de oportunidades e desafios, Valéria não esquece suas origens, no litoral paulista. “Se estou onde estou hoje, foi graças a tudo o que vivi em São Sebastião. Minha família era de classe média baixa. Minha mãe trabalhava na cantina de um colégio, meu pai na balsa. Desde os dez anos eu não tinha recreio na escola, pois gostava de ajudar minha mãe nas vendas”.

Com 13 anos, ela foi auxiliar de dentista em São Sebastião e pouco tempo depois passou a guardar dinheiro para conseguir estudar no nível superior. Trabalhou no banco Bradesco, também numa copiadora. Aos 17 anos, começou a vender sanduíche natural na praia e nos verões, acordava as 3h para preparar os lanches que ofereceria ao público.

A jovem queria cursar odontologia, mas como não conseguiu aprovação no vestibular na primeira opção, resolveu cursar a segunda, que era psicologia e se matriculou na Universidade Brás Cubas, em Mogi das Cruzes. Trabalhava durante o dia e estudava a noite, para conseguir se manter no curso. Chegou a enfrentar a estrada diariamente e ir de moto de São Sebastião para Mogi, a fim de economizar, até que conseguiu alugar uma casinha na cidade.

Uma vez por mês buscava biquinis no Rio de Janeiro, para vender no litoral. Foi assim até se formar, quando voltou para São Sebastião. Na época passou no concurso como psicóloga e iniciou a carreira. Mas por uma inquietação que faz parte de sua natureza, resolveu buscar uma especialização fora do país. O local escolhido foi Londres, onde permaneceu por seis meses e fez estágio num projeto da rainha, que atendia pacientes latino americanos com DST/Aids.

A primeira experiência internacional já foi difícil. Foi um tempo desafiador e, longe da família, acabou ficando um pouco deprimida e resolveu voltar por um tempo ao Brasil. Mas na volta, durante um namoro acabou engravidando e precisou novamente mudar seus planos. Não voltaria mais a Londres. Passou a morar com os pais novamente e trabalhar na Prefeitura de São Sebastião como psicóloga.

Ela precisou se afastar por um tempo e, depois ao retornar à prefeitura, cuidando do filho, recomeçando a vida profissional, conheceu em aniversário de 33 anos um belga que mudaria sua trajetória. Em determinada situação, estava com outras seis amigas num estabelecimento de Ilhabela e ele e outros seis amigos na mesa ao lado. Era notório de que não eram brasileiros. Como o garçom teve dificuldades para traduzir o cardápio para eles, Valéria se ofereceu para ajudar. “Eu olhei para um deles, que também olhou para mim e houve algo diferente na hora”, conta.


A partir daí passaram a se conhecer melhor. “Apresentei a ele a Bossa Nova, a caipirinha e outras coisas boas do Brasil naquele mesmo dia. Quando nos despedimos, ele me deu um abraço, que parecia que nos conhecíamos há muito tempo. Já tinha alguma ligação e ali selamos nossas vidas”. Oito meses depois eles casaram. O filho de Valéria, Enzo, foi registrado pelo marido e a família começou a morar na Bélgica. Foram oito anos por lá.

“Do congelador para o deserto”

De acordo com Valéria, tanto na Bélgica, quando em Madrid – outra localidade que moraram, era possível ser ela mesmo, viver bem, ter liberdade, trabalhar. Mas o clima era mais frio e isso a deprimia um pouco. Então quando houve o convite de seu marido para ir para Arábia, poderia ser uma boa alternativa. “Queria ir para um lugar mais quente, mas não imaginava que tanto. Foi como sair do congelador para o deserto”, comentou. Na Arábia Saudita, as temperaturas no verão ultrapassam 50 graus e no inverno, ficam em pelo menos 30 graus.

Quando houve o curso para os casais que iriam mudar para lá, foram dadas as instruções. Entre as mudanças, foi informado de que as mulheres teriam que mudar as vestimentas, não poderiam trabalhar e nem dirigir. Foi alertado das diferenças, principalmente em relação à religião. “As principais diferenças da Arábia estão ligadas à religião”, comentou a brasileira, que diz respeitar várias denominações, mas não frequentar nenhuma.

O marido foi na frente para o novo país, de modo a preparar o local. “Sabíamos que iríamos morar num local muito lindo, mas também que não poderia sair de lá sem usar a abaya – tecido com o qual as mulheres não muçulmanas precisam cobrir a cabeça”, afirmou. Ela também foi orientada que não seria possível sair de casa sem o motorista. A maioria dos motoristas são indianos ou de outros países, que vão para o local em busca de melhores oportunidades de renda.


A diferença de fuso horário na Arábia seis horas a mais, comparado ao horário de Brasília. Eles não oferecem vistos a turistas. Para chegar lá São 14 horas de voo até o Qatar e depois mais uma hora para a Arábia.

Mulher não pode…

Entre as diversas proibições impostas para o público feminino em território Árabe, está o fato da mulher não poder dirigir. A justificativa dos homens é de que estão protegendo elas, já que o trânsito é caótico no país.

Eles alegam que a burca não as deixa enxergar direito, por isso é melhor não poderem dirigir. Além disso, não há respeito às leis de trânsito e o número de acidentes é grande. Um amigo de trabalho do marido da brasileira morreu num desses incidentes.

Como mulher não pode dirigir, as vezes tem crianças de 12 ou 13 anos que são colocados para conduzir veículos e levar as mães na realização de tarefas do dia a dia, como ir ao supermercado. “Não se respeitam leis de trânsito na Arábia. Talvez, por não terem outras oportunidades de extravasar, acabam fazendo loucuras no trânsito”, falou a sebastianense.

Nas lojas de roupas, só o homem tem direito ao provador. As mulheres não podem experimentar vestimentas no comércio. Tem que comprar, levar para casa. Se não servir, pode até devolver, mas experimentar na loja não pode.

Como dinheiro não é um problema por lá, há muitas lojas de grife internacional. Os homens costumam presentear as mulheres com muitas joias, que é uma forma de mostrar o poder do marido. As joias se sobressaem mesmo sobre as burcas.

A mulher normalmente anda atrás dos homens, assim como as crianças também. Elas não podem jamais inverter essa ordem.

Num restaurante, há ala de solteiros e a ala das famílias. O homem solteiro nunca pode olhar uma mulher árabe. “No restaurante, eles colocam um biombo ao redor de cada mesa, pois aí as mulheres vão tirar a burca para comer e não podem aparecer em público”, destacou.


Até mesmo os treinos em academias são separadas. Tem as femininas e as masculinas. Nas ruas, apesar de hoje estarem em menor escala, existem os “guardas religiosos”, que ficam espalhados para poder reprimir quem não está cumprindo os padrões de vestuário, por exemplo. “A mão, o braço, o cabelo, têm uma conotação erótica. Então precisa estar tudo tapado. Mas eles ficam de olho e as vezes orientam a cobrir a cabeça, por exemplo. Por isso, as mulheres estrangeiras precisam ter sempre na bolsa, pelo menos um xale”, explicou.

Ainda assim, Valéria Ramos é otimista. “Hoje elas até estão ficando um pouco mais espertas, a internet tem ajudado a conhecer outras culturas e aprender que existe algo a mais”.

Uma árabe entre expatriadas

O termo expatriada é utilizado para definir aquelas pessoas que vivem fora de seus países, na Arábia. Essas pessoas, assim como a família de Valéria, devem ficar no convívio de outros na mesma condição e não se misturarem com outros. A sebastianense diz que sempre sentiu muita dó de ver a forma que elas vivem, sob toda essa repressão.

Nesse contexto, ela lembra de uma situação em que chegou a correr riscos, para possibilitar que uma árabe participasse de um encontro em sua casa, com mulheres de várias parte do mundo.


Essa mulher árabe começou, sob influência de outras, a ter amigas de outras nacionalidades e resolveu estudar sozinha pela internet. Hoje, possui até uma escolinha de inglês para as crianças árabes na casa dela. Também ensinou as filhas, escondida do marido. Ele acabou percebendo, mas permitiu que ela se desenvolva.

Por ser árabe, ela não pode entrar no condomínio de expatriados. É feita uma inspeção rigorosa e pedido o documento de estrangeiro. Quem não tem é barrado já na entrada. “Um dia consegui a façanha de levar ela para um almoço na minha casa, como boa brasileira que sou. Percebi que ela tinha muita vontade de ir lá e ajudei”, comentou.

A psicóloga lembra que afirmou na portaria que estava trazendo uma amiga expatriada que estava sem documento. “A gente não usa nada na cabeça. Só um vestido longo preto, com algo pra cobrir a cabeça, conhecido como a abaya. Mas as muçulmanas têm um véu e a burca. Eu disse que ela teria que tirar e foi o que ela fez, mas ficou tremendo no carro. Dei a ela meu óculos de sol e conseguimos passar pelo bloqueio”, contou.

Quando chegou na casa, 22 mulheres fizeram uma recepção para ela. Ela sentou e disse que a sensação do homem olhando para ela e vendo o rosto, é como se estivesse pelada. Foi uma adrenalina que precisou passar.

Mas essas pequenas ações estão ajudando no desenvolvimento da árabe. Antes o marido dela viajava com outras mulheres para outros países, enquanto ela nunca tinha saído da Arábia Saudita. Isso mudou um pouco no ano passado, quando ela conseguiu fazer uma viagem para uma ilha árabe com toda a família. “Ela está devagar, conseguindo conquistar o espaço dela”, completou.

StandUp à moda Árabe


Numa certa ocasião, cansada dos palpites que recebia de outras expatriadas, em relação às roupas que estava usando nos condomínios – segundo ela nada fora dos limites estabelecidos –  Valéria decidiu praticar Stand Up Paddle de burca. Ela vestiu a roupa, pegou a prancha e começou a remar.

O que ela não imaginava era que isso daria ainda mais o que falar. Isso porque quando avistaram uma pessoa toda coberta, chegando pela praia no condomínio, acharam que poderia se tratar de um ataque terrorista. A segurança foi acionada e gerou um corre corre, até que fosse identificado que se tratava de uma moradora.

Tempo de orar

Um fato diferenciado que ocorre na Arábia, é o chamado “prayer time”. São cinco ocasiões por dia em que tudo para no país de modo que a população faça suas preces, que duram cerca de 25 a 30 minutos. “Se você está num restaurante, vai ter que esperar. Eles param tudo o que estão fazendo, fecham os estabelecimentos e só voltam a funcionar depois. As lojas ficam abertas até meia noite. No verão, às 22h ainda tem sol. Mas o “prayer time” muda de acordo com o calendário solar.

“Como você compra uma lingerie com um homem te atendendo?”, questiona. Mas as mulheres também não têm espaço no mercado de trabalho.

A escola do filho de Valéria é mista, porque recebe alunos de pessoas de outros países. Mas os árabes, vão para escolas de meninos e meninas, separados. A mãe não pode falar com a professora se tiver algum problema. No hospital, os homens não podem falar com as mulheres, assim como as mulheres não podem falar com os funcionários homens.

O dia sagrado na Arábia é sexta, então sexta e sábado o país praticamente não funciona. Domingo é o primeiro dia da semana: as pessoas trabalham e estudam normalmente.


A internet favorece bastante a comunicação entre as pessoas e ampliou a luta das mulheres, mas ainda assim é limitada. Muitos sites não abrem e algumas redes sociais são bloqueadas.

Álcool zero

Nos países do oriente, não se encontra bebida alcoólica em supermercados. Aliás, não só no supermercado. Eles são super rigorosos com essa comercialização. Só consegue em outros países, em hotéis cinco estrelas. Portar ou produzir a cerveja e outras bebidas é crime.

“Quando a gente acha um vinho fora do Brasil, fica animado. Eles são caríssimos. Um vinho que costumo pagar por R$ 40, com eles foi pra U$ 200. Outra restrição na Arábia é a carne de porco. Quando chego no Brasil, eu já peço logo um Cheese-bacon para aproveitar”, afirmou em tom de brincadeira.

Em relação à bebidas alcóolicas, a psicóloga conta que já conheceu pessoas presas pela fabricação e comercialização das mesmas. Um australiano, conhecido da família, foi preso porque estava produzindo bebida. Ficou oito meses na cadeia, num espaço que é bem ruim no país, com um sistema punitivo. O erro da vítima foi, além da produção da bebida, servir para outros condôminos.

“Se te pegarem com uma receita ensinando como fazer bebida alcóolica, você já pode ser preso. Para entrar no país, pode demorar várias horas, pois é preciso passar por seis alfândegas”, completou.

Consciência ambiental ou falta dela

Por causa do petróleo, os árabes consomem muitos itens que são ruins para o meio ambiente e não têm noção de ecologia. A sacolinha do supermercado, por exemplo, parece de tecido de tão grossa que é. “Eles colocam uma caixa de fósforo nessa sacola, e é muito comum lançarem coisas pela janela, pois eles não têm cuidado algum com a preservação do meio”, contou a brasileira.

Brasil, o refúgio e o futuro

O Brasil, que um dia já foi morada de Valéria, hoje funciona como um refúgio duas vezes por ano. É o momento de conversar, de rever amigos, de andar com a roupa que quiser, de ser ela mesmo.

Segundo ela, hoje em dia é possível viajar para terras brasileiras duas vezes por ano, durante as férias. O casal construiu uma casa em Barequeçaba, que será a morada no futuro. “A ideia é ficar uns dois ou três anos na Arábia e depois mudar para o Brasil. Hoje meu marido fala que é mais brasileiro do que Belga”, comentou.


A ideia é vir e com a bagagem que tem, atuar no Brasil com projetos e outras ações, sem muito compromisso de tempo. “Uma das metas do meu marido é fazer uma viagem pela costa brasileira com o hidroavião que ele comprou. Queremos voltar e viver tranquilamente, para valer a pena todo o sacrifício no oriente”.

Apesar dos pesares, Valéria Souza Ramos diz que o “seu povo” tem motivos de sobra para comemorar. “Acho que nós brasileiros estamos passando por um momento tão difícil, mas temos que nos orgulhar da nossa personalidade e do nosso caráter. Nós conseguimos ser versáteis, se adaptar a outras culturas, se colocar no lugar do outro”, concluiu.

Por Ricardo Hiar, de São Sebastião, publicado em fevereiro de 2017, no portal Tamoio News.
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19.1.17

Paella Valeriana


Apesar de participar de uma cooking class de paella valenciana na bela cidade de Valência, terra natal deste prato na costa lesta da Espanha, local onde nasceu a paella, hoje adoro elaborar a Paella Valeriana. De lá para cá fiz aproximadamente 50 paellas para amigos, família e apreciadores dessa especialidade espanhola.

A paella surgiu como alimento dos camponeses, nos séculos XV e XVI. Quando saíam para o trabalho rural, levavam arroz, azeite de oliva e sal, além de um recipiente para cozinhar: uma panela redonda com alças, ampla e rasa chamada de "paella". A origem desta verdadeira delícia está fortemente relacionada ao campo, por isso os ao prepará-la incorporavam à receita do prato os ingredientes que encontravam pelo campo, tais como, carne de caça, sobretudo de lebre e de pato, legumes da estação e açafrão, especiaria nobre retirada das flores e que dá ao arroz um sabor especial e o colorido amarelado tão característico. Passado algum tempo, a paella difundiu-se e alcançou todo o litoral valenciano.

A partir daí, acrescentou-se à receita os frutos do mar: camarões, lulas, vôngoles, mexilhões, lagostins e polvo, tornando-o um prato misto (terra e mar).

A origem da palavra paella vem do latim "patella", uma bandeja usada na antiga Roma destinada às oferendas aos deuses, nos rituais de fecundação da terra. Dizem também os historiadores que a palavra "paella" surgiu quando os trabalhadores rurais voltavam para seus lares nos finais de semana quando, em homenagem às suas esposas, preparavam essa deliciosa iguaria "para ellas" dando origem ao nome.

Na paella que preparo, geralmente uso os ingredientes convencionais. Às vezes, gosto de acrescentar algo diferente ou um temperozinho mais brasileiro, por isto a chamo de Paella Valeriana, por ser uma receita preparada a minha maneira.

Como vivo fora da minha terra natal e adoro receber amigos em nossa casa, adotei a paella como prato principal nas nossas reuniões quando estamos na pátria amada. É um prato muito apreciado pelo brasileiro e sempre faz muito sucesso nas minhas festas e reuniões familiares.

Nossa cozinha no Brasil, com a brisa do mar, perfeita para meus hobbies culinários

Minha assistente predileta: mãos para toda obra!


Meu companheiro de vida é cliente preferencial!


Prazer em cozinhar e em servir


 Onde há Paella Valeriana, há bons amigos!

 Esta foi em Madrid, cozinhei com muito carinho para meus pais que estavam lá nos visitando, olha a carinha de feliz e satisfeito, amei!








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